*Ilusões no Espelho*


Eu não tenho muito a falar

Só que talvez estejamos na guinada da História

Um tempo desprovido de verdade

Estamos na sarjeta

Contudo ainda com força nas mãos

Como o último suspiro de um cardíaco

O adeus furtivo de um suicida

O derradeiro olhar dos que se separam

Ah, é sempre um impulso!

 

E em frente diviso rochas desarranjadas

A metamorfose de uma estrada que, ao se desvendar, obscurece.

Os rios sentem o gotejar da saliva

Dos famintos a especularem, agonizantes.

 

Cabem poucos!

Oh, se é que cabe alguém!

Vamos nos dividir em banda para degustar desta iguaria final

A terra treme ao encontro dos braços e dos rostos

Um fluido suave permeia o ar

 

Mas se aglomera a paralisia

A incompetência ao se tratar com a luz

Que se fatiga e se esvai, como um piscar de olhos de um gigante.

 



 Escrito por Carol Petersen às 12:16 PM
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Desnudo

Estou entre os passos que não dei

e o término da jornada.

Difundido em espaços diversos,

o que poderia ser e não foi.

Em volta, tudo branco, imperscrutável.

A miscelânea das possibilidades,

das ruas não inauguradas,

das estórias refutadas,

da corrente estancada por gestos e intenções.

As horas por mim dispensadas

cedem lugar ao meu mundo sério,

ao mundo do meu eu presente.

Sacrifício. Algo sempre fenece.

Fui-me a melhor escolha?



 Escrito por Carol Petersen às 04:03 PM
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Um forte

Bradei

Pelo menos acredito tê-lo feito

Não por sua causa

Mas pelos semblantes fatigados

Pelas peles já ressecadas, contornos murchos ao meu redor

 

Mesmo sabendo que você se foi

Levantei a voz, exasperada

Com a última energia do corpo

Na derradeira contração dos músculos

Vi a satisfação dos demais

 

Acreditara no fim

Condicionado que estive a sua presença

Mas se agora luto, mesmo que ínfima minha força

Robustez do meu ser se apresentando

 

Não sei se é esperança

Acho que foi só um sinal de resistência

Aqui dentro, não sinto o eco da luz

Porém o grito balançou minha alma

E a dos demais

 

Rejeito conversas

Torno-me a mim

Encolho-me numa posição quase fetal

Momentos cruéis que sua ausência me deixou

Agüentei firme

Clamei

Sobrevivi (não à vida, mas a sua falta)



 Escrito por Carol Petersen às 11:25 AM
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Ele se abrigava debaixo d’água para não se expor, tinha medo dos dentes sinuosos dos bichos-da-terra. Odiava sangue, evitava brigas, só queria sobreviver na tranqüilidade das regiões abissais. Tinha conforto, e para que mais? Valiam os calafrios e as preocupações? Não, nem pensar, estava certo, só ele sabia de si. Só de lembrar daquelas garras, dos dentes, os olhos escancarados, da pele espinhosa e ameaçadora... A água era o seu recôndito. Negava-se sair de lá. Sozinho, na presença de coisa-alguma-viva, indiferente a alternativas diversas. E por que se aventurar? Não fazia questão da convivência, auto-suficiente que era. Estava bem, confiante.

O tempo passou. Os períodos geológicos sucediam em complexa fusão, espaço transfigurava-se em novas dimensões e o tempo deixara de ser marcado; todos os planos se conjugaram em uma realidade espessa. Ele firmou-se em seu domínio, aumentando fronteiras em seu habitat aquático. Pintou, só para ele, algumas flores e frutos, desolados diante dos seus destinos. Ele ouviu, contudo, o estalar dos anos, o ranger sonoro das coisas. Não se intimidou nem alterou seus planos. Aqueles seres terríveis que fiquem longe!  Mas sua vida combaliu, como suas criações frágeis, e na virada da última era e dos segundos finais, a água tornou-se escura, da cor da sua tristeza. A água tomou ares podres, sufocando-o.

Tivesse dado uma chance a si e aos outros, teria percebido que não haviam mais monstros-da-terra, ela estava desprovida há muito destes. Pusesse os olhos para fora da água, veria um antro aconchegante e vigoroso, com vida.



 Escrito por Carol Petersen às 09:36 PM
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Anjo

Quero poder ter-te ao meu lado

a qualquer instante,

no mais insignificante dos suspiros,

na mais esperada das situações.

Fazer-te meu, somente meu,

como sou tua, intensamente.

 

 

Sou tua e nunca irei me perder de ti.

Sou tua, meu anjo, peço-te aqui,

comigo,

sempre;

no emaranhar das horas,

no envolver do Sol.

 

Sou tua e carente de ti

Só tua e quero em ti sentir-me

completa.



 Escrito por Carol Petersen às 11:10 PM
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